sábado, 19 de abril de 2014

Números

Na cena final de Monsier Verdoux, o desabafo cinematográfico de Chaplin sobre as repetidas intromissões de todos em sua vida matrimonial, o personagem principal do banco dos réus afirma: "Os números santificam. Eu mato uma pessoa, sou um assassino. Tivesse matado um milhão seria um herói."
Raciocínio semelhante, porém inverso acontece na internet. Fale mal de alguém, em uma conversa de bar ou em um encontro casual na rua e você corre o risco de receber um sorriso de aprovação. Coloque o mesmo comentário, sobre a mesma pessoa em uma rede social onde milhares poderão ler e o advogado do insultado entrará em contato para exigir a devida reparação monetária.
Compre um DVD, assista o filme e faça uma cópia para o seu vizinho também poder apreciar a obra. Ele lhe será eternamente grato (ou pelo menos até que outro lançamento de Hollywood atraia o interesse dele), coloque a mesma cópia em um site de compartilhamento e um funcionário engravatado do Obama baterá a sua porta, comunicando gentilmente que você, a partir deste instante, é um criminoso procurado pelo FBI.
Sim, eu sei que publicamente devemos nos comportar de modo mais contido, porém o que me chama atenção nos casos que relatei é o mesmo ato poder ser considerado um favor ou um delito. Tal diferença conduz ao raciocínio, incorreto, que se poucos enxergarem então é permitido. Nossa ética não deveria depender de números, nem para mais nem para menos.

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